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2 de mai. de 2013

O Caminho do Meio Dentro de Nós

Retirado do site Centro de Estudos Buddhistas Nalanda

Por Ajahn Chah

[1] O ensinamento do Buddhismo é sobre abandonar o mal e praticar o bem. Então, quando o mal é eliminado e o bem estabelecido, temos que abandonar ambos. Já ouvimos o suficiente sobre as condições benéficas e prejudiciais para entendermos um pouco sobre elas, então eu gostaria de falar sobre o Caminho do Meio, isto é, o caminho para transcender ambas as coisas.

Todas as palestras do Dhamma e ensinamentos do Buddha têm um objetivo – mostrar o caminho para sair do sofrimento àqueles que ainda não o conseguiram. Os ensinamentos têm a finalidade de nos oferecer o entendimento correto. Se não entendermos corretamente, então não alcançaremos a paz.

Quando todos os Buddhas se iluminaram e deram seus primeiros ensinamentos, eles falaram desses dois extremos – a entrega ao prazer e a entrega à dor [2]. Estes dois caminhos são os caminhos da paixão, são aqueles dentre os quais os que se entregam aos prazeres sensuais oscilam, sem nunca alcançar a paz. Eles são os caminhos que giram no saṁsāra.

O Iluminado observou que todos os seres estão presos a esses dois extremos, nunca vendo o Caminho do Meio do Dhamma, então ele o apontou, a fim de mostrar a consequência envolvida em ambos. Porque ainda estamos presos, porque ainda estamos desejando, vivemos repetidas vezes sob seu domínio. O Buddha declarou que esses caminhos são os da intoxicação, eles não são os caminhos de um praticante, não são caminhos para a paz. Esses caminhos são a entrega ao prazer e à dor, ou, simplificando, o caminho da negligência e da tensão.

Se você investigar dentro de si, momento a momento, verá que o caminho da tensão é a raiva, o caminho da infelicidade. Seguindo por esse caminho só haverá dificuldade e sofrimento. Entregar-se ao prazer – se você transcendeu isso, significa que você transcendeu a felicidade. Esses caminhos, tanto a felicidade como a infelicidade não são estados de paz. O Buddha ensinou a deixá-los passar. Essa é a prática correta. Esse é o Caminho do Meio.

Estas palavras, ‘O Caminho do Meio’, não se referem ao nosso corpo e linguagem, eles se referem à mente. Quando surge uma impressão mental de que não gostamos, ela afeta a mente e há confusão. Quando a mente está confusa, quando ele está ‘agitada’, não estamos no caminho correto. Quando surge uma impressão mental de que nós gostamos, a mente se entrega ao prazer – que também não é o caminho.

Não queremos o sofrimento, nós queremos a felicidade. Mas, na verdade a felicidade é apenas uma forma refinada de sofrimento. Sofrimento propriamente dito é a forma grosseira. Você pode compará-lo a uma cobra. A cabeça da cobra é a infelicidade, a cauda da cobra é a felicidade. A cabeça da cobra é muito perigosa, tem as presas venenosas. Se você tocá-la, a cobra vai morder imediatamente. Mas não importa a cabeça, mesmo se você agarrar a cauda, ​​ela vai se virar e morder-lhe da mesma forma, porque tanto a cabeça quanto a cauda pertencem à mesma cobra.

Da mesma forma, tanto a felicidade quanto a infelicidade, o prazer ou a dor, surgem a partir de um mesmo pai – o querer. Então, quando você está feliz, a mente não está em paz. Realmente não está! Por exemplo, quando temos as coisas que gostamos, como riqueza, prestígio, elogios ou felicidade, ficamos satisfeitos com o resultado. Mas a mente ainda abriga uma inquietação, porque estamos com medo de perdê-los. Esse temor não é um estado pacífico. Mais tarde poderemos perder aquilo e então realmente sofreremos.

Assim, se você não estiver consciente, mesmo se você estiver feliz, o sofrimento é iminente. É exatamente o mesmo que agarrar a cauda da cobra – se você não deixar que ela se vá, ela morderá. Então, se é cauda da cobra ou a cabeça da cobra, ou seja, condições benéficas ou prejudiciais, elas são apenas características da Roda da Existência, de mudança sem fim.

O Buddha estabeleceu moralidade, concentração e sabedoria como o caminho para a paz, o caminho para a iluminação. Mas, na verdade, essas coisas não são a essência do Buddhismo. Elas são apenas o caminho. O Buddha as chamou de ‘magga’, que significa ‘caminho’. A essência do Buddhismo é a paz, e a paz surge do conhecimento verdadeiro da natureza de todas as coisas. Se investigarmos de perto, poderemos ver que a paz não é nem a felicidade nem a infelicidade. Nenhuma delas é a verdade.

A mente humana, a mente que o Buddha exortou-nos a conhecer e investigar, é algo que só podemos conhecer através da sua atividade. A verdadeira ‘mente original’ não pode ser medida, não pode ser conhecida. Em seu estado natural, é inabalável, imóvel. Quando a felicidade surge, o que acontece é que essa mente se perde numa impressão mental, há movimento. Quando a mente se move assim, o apego e a ligação a essas coisas passam a existir.

O Buddha estabeleceu o caminho da prática em sua totalidade, mas ainda não o praticamos, ou se o fazemos, temos praticado apenas no discurso. Nossas mentes e nossa fala ainda não estão em harmonia, nós estamos entregues a uma conversa vazia. Mas a base do Buddhismo não é algo que pode ser debatido ou imaginado. A base real do Buddhismo é o pleno conhecimento acerca da verdade da realidade. Se alguém conhece essa verdade, então não é necessário nenhum ensinamento. Se alguém não conhece, mesmo que ele ouça o ensinamento, ele realmente não ouvirá. É por isso que o Buddha disse: “O Iluminado apenas aponta o caminho”. Ele não pode fazer a prática por você, porque a verdade é algo que não pode ser colocado em palavras ou dado de presente.

Todos os ensinamentos são apenas símiles e comparações, meios para ajudar a mente a ver a verdade. Se ainda não pudermos ver a verdade, sofreremos. Por exemplo, podemos dizer vulgarmente ‘sankhāras’ [3] quando nos referimos ao corpo. Qualquer um pode dizer isso, mas na verdade temos problemas simplesmente porque não sabemos a verdade desses sankhāras, e, assim, nos apegamos a eles. Porque não conhecemos a verdade do corpo, sofremos.

Eis um exemplo. Suponha que uma manhã você está caminhando para o trabalho e um homem grita ofensas e insultos a você do outro lado da rua. Assim que você ouve essas ofensas sua mente muda de seu estado habitual. Você não se sente tão bem, você sente raiva e mágoa. O homem continua agindo assim noite e dia. Sempre que você ouvir a ofensa, você ficará com raiva, e mesmo quando você voltar para casa você ainda estará sentindo raiva porque você se sente vingativo, você quer revidar.

Poucos dias depois, outro homem vem a sua casa e chama: “Ei! Aquele homem que lhe ofendeu outro dia, ele é louco, ele é doido! Tem feito isso há anos! Ele ofende todo mundo assim. Ninguém dá ouvidos ao que ele diz”. Assim que você ouve isso você se sente repentinamente aliviado. Aquela raiva e mágoa que você vinha reprimindo em si mesmo durante esses dias, se esvai completamente. Por quê? Porque agora você sabe a verdade sobre aquilo. Antes, você não sabia, você pensava que o homem era normal, então você estava com raiva dele. A forma como você interpretou os fatos lhe fez sofrer. Assim que você descobriu a verdade, tudo mudou: “Ah, ele é louco! Isso explica tudo!”

Quando você entende isso, você se sente bem, porque você sabe por si mesmo. Tendo compreendido então, você pode deixar passar. Se você não sabe a verdade você se apega ali mesmo. Quando você pensou que o homem que o ofendeu era normal você poderia até tê-lo matado. Mas quando você descobriu a verdade, que ele era louco, você se sente muito melhor. Isso é o conhecimento da verdade.

Alguém que vê o Dhamma tem uma experiência semelhante. Quando apego, raiva e ilusão desaparecem, também é assim. Enquanto não sabemos essas coisas nós pensamos: “O que eu posso fazer? Eu tenho tanto desejo e raiva”. Esse não é o conhecimento claro. É o mesmo que quando pensamos que o louco era são. Quando, finalmente, vimos que ele estava louco o tempo todo, nós deixamos de nos afligir. Ninguém poderia nos mostrar isso. Só quando a mente vê por si mesma pode desarraigar e abandonar o apego.

É o mesmo que acontece com este corpo que chamamos de sankhāras. Embora o Buddha já tenha explicado que ele não é substancial ou tal como um ser real, ainda não aceitamos, nós teimamos em nos apegar a ele. Se o corpo pudesse falar, ele provavelmente nos diria o dia todo: “Você não é meu dono, sabe disso!” Na verdade ele está nos dizendo isso o tempo todo, mas é na linguagem do Dhamma, portanto não conseguimos entendê-lo.

Por exemplo, os órgãos dos sentidos: olhos, ouvidos, nariz, língua e corpo estão em constante mudança, mas eu nunca os vi pedir nossa permissão sequer uma vez! Como quando temos uma dor de cabeça ou de estômago, o corpo nunca pede permissão antes, ele simplesmente vai em frente, seguindo o seu curso natural. Isto mostra que o corpo não permite a ninguém ser seu dono. Ele não tem um proprietário. O Buddha descreveu-o como um objeto vazio de substância.

Não compreendemos o Dhamma e por isso não entendemos esses sankhāras, assumimos que eles somos nós, que nos pertencem ou pertencem a outros. Isso gera o apego. Quando apego surge, ‘vir-a-ser’ vem em seguida. Uma vez que surge o ‘vir-a-ser’, então há o nascimento. Uma vez que há nascimento, então surgem velhice, doença, morte e toda a massa de sofrimento.

Isso é paticcasamuppāda [4]. Nós dizemos que a ignorância gera atividades volitivas, que dão origem à consciência e assim por diante. Todas essas coisas são simplesmente eventos que acontecem na mente. Quando entramos em contato com algo de que não gostamos, se não temos plena vigilância, a ignorância estará ali. O sofrimento surge de imediato. Mas a mente passa por essas mudanças tão rapidamente que não conseguimos acompanhá-las. É o mesmo quando você cai de uma árvore. Antes que você se dê conta – ‘baque!’ – Você caiu no chão. Na verdade, você passou por muitos ramos e galhos no caminho, mas você não poderia contá-los, você não conseguia se concentrar neles à medida em que passava por eles. Você somente caiu e então ‘baque!’

Com o paticcasamuppāda acontece o mesmo. Se o dividirmos como está nas escrituras, diremos que a ignorância dá origem às atividades volitivas, as atividades volitivas dão origem à consciência, a consciência dá origem a mente e à matéria, a mente e a matéria dão origem às seis bases dos sentidos, e as bases dos sentidos dão origem ao contato sensorial, que dá origem à sensação, que dá origem ao querer, que dá origem ao apego, que dá origem ao vir-a-ser, que dá origem ao nascimento, que dá origem à velhice, à doença, à morte e a todas as formas de sofrimento. Mas, na verdade, quando você entra em contato com algo que você não gosta, há sofrimento imediato! Esse sentimento de sofrimento é, na verdade, o resultado de toda a cadeia do paticcasamuppāda. É por isso que o Buddha exortava os seus discípulos a investigar e conhecer plenamente as suas próprias mentes.

Quando as pessoas nascem no mundo elas não têm nomes – uma vez nascidas, recebem nomes. Isso é uma convenção. Nós damos nomes às pessoas por uma questão de conveniência, para termos como chamar uns aos outros. Às escrituras ocorre o mesmo. Separamos tudo com etiquetas para facilitar o estudo da realidade. Da mesma forma, todas as coisas são simplesmente sankhāras. Sua natureza original é somente a de coisas originadas de condições. O Buddha disse que elas são impermanentes, insatisfatórias e não-eu. Elas são instáveis. Nós não entendemos isso plenamente, nosso entendimento não é preciso, e por isso temos uma visão errada. Esse ponto de vista equivocado é o que nos leva a pensar que os sankhāras somos nós mesmos, que nós somos os sankhāras, ou que a felicidade e a infelicidade somos nós mesmos, que somos a felicidade e a infelicidade. Ver desta forma não é conhecer claramente a verdadeira natureza das coisas. A verdade é que não podemos forçar todas essas coisas a seguir os nossos desejos, elas seguem o caminho da natureza.

Aqui está uma comparação simples: suponha que você vá se sentar no meio de uma autoestrada com os carros e caminhões vindo em sua direção. Você não pode ficar com raiva dos carros, gritando: “Não dirijam por aqui! Não dirijam por aqui!” É uma autoestrada, você não pode dizer isso a eles. Então, o que você pode fazer? Você pode sair da estrada! A estrada é o lugar onde os carros correm, se você não quiser que os carros estejam lá, você sofrerá.

É o mesmo com sankhāras. Nós dizemos que eles nos perturbam, como quando sentamos em meditação e ouvimos um som. Nós pensamos: “Ah, esse o som está me incomodando”. Se entendermos que o som nos incomoda, então sofreremos de acordo. Se investigarmos um pouco mais, veremos que somos nós que saímos e perturbamos o som! O som é simplesmente som. Se entendermos desta forma, então não haverá nada mais do que isso, nós o deixamos em paz. Vemos que o som é uma coisa, nós somos outra. Aquele que pensa que o som vem perturbá-lo é aquele que não consegue ver a si mesmo. Ele realmente não consegue! Depois de ver a si mesmo, você estará tranquilo. O som é apenas o som, por que você deveria agarrá-lo? Você vê que, na verdade, foi você quem saiu e perturbou o som.

Esse é o verdadeiro conhecimento da verdade. Você vê os dois lados, assim você terá paz. Se você perceber apenas um lado, haverá sofrimento. Depois de ver os dois lados, você segue o caminho do meio. Essa é a prática correta da mente. Isto é o que chamamos de endireitar a nossa compreensão.

Da mesma forma, a natureza de todos os sankhāras é impermanência e morte, porém queremos agarrá-los, nós os carregamos conosco e os desejamos. Queremos que eles sejam verdadeiros. Queremos encontrar a verdade nas coisas que não são verdadeiras. Sempre que alguém pensar assim e se agarrar aos sankhāras como sendo ele mesmo, sofrerá.

A prática do Dhamma não depende de ser um monge, um noviço ou um leigo; depende de acertar a sua compreensão. Se nosso entendimento está correto, atingimos a paz. Se você tem ordenação ou não, é a mesma coisa. Toda pessoa tem a oportunidade de praticar o Dhamma, de contemplá-lo. Nós todos contemplamos a mesma coisa. Se você alcançar a paz, é a mesma paz para todos, é o mesmo caminho, com os mesmos métodos.

Portanto, o Buddha não discriminava laicos e monges, ele ensinava a todas as pessoas a prática de conhecer a verdade dos sankhāras. Quando conhecemos essa verdade, nós os deixamos passar. Se conhecermos a verdade, não haverá mais vir-a-ser ou nascimento. Como não haverá mais nascimento? Não há mais como ocorrer o nascimento porque conhecemos plenamente a verdade dos sankhāras. Se conhecermos a verdade plenamente, então haverá paz. Ter ou não ter, é tudo a mesma coisa. Ganho ou perda é a mesma coisa. O Buddha nos ensinou a entender isso. Isso é paz; paz em relação à felicidade, infelicidade, alegria e tristeza.

Temos de ver que não há razão para nascer. Nascer em que sentido? Nascer dentro da alegria: Quando temos algo que gostamos nós estamos contentes por isso. Se não há apego a essa alegria, não há nascimento, se existe apego, há ‘nascimento’. Então, se temos algo, não nascemos (dentro da alegria). Se perdermos, então nós não nascemos (dentro da tristeza). Isto é o não nascido e o imortal. Nascimento e morte, ambos, são encontrados no apego e no amor aos sankhāras.

Então o Buddha disse: “Não há mais nascimento para mim, a vida santa está finalizada, este é o meu último nascimento”. Ele conhecia o sem nascimento e sem morte. Isto é o que o Buddha constantemente exortava os seus discípulos a saber. Esta é a prática correta. Se você não alcançá-la, se você não chegar ao Caminho do Meio, então, você não transcenderá o sofrimento.

Notas:

[1] Palestra dada no dialeto do nordeste a um grupo de monges e laicos em 1970.

[2] sofrimento, insatisfatoriedade.

[3] sankhāra – formações ou formações volitivas (com referência tanto à atividade volitiva de ‘formar’ coisas quanto às coisas formadas). Na língua tailandesa a palavra ‘sungkahn’, proveniente da palavra pāli ‘sankhāra’ (todos os fenômenos condicionados) é um termo comumente usado para o corpo. O Venerável Ajahn usa a palavra em ambos os sentidos.

[4] paticcasamuppāda – O princípio do surgimento condicionado, uma das doutrinas centrais do ensinamento budhista.



Traduzido por Rosana Barbosa
para o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda
com a permissão dos detentores do copyright
© 2013 Edições Nalanda


Nota: “Os Ensinamentos de Ajahn Chah” consiste de uma coletânea de ensinamentos dados por um dos mais importantes mestres da tradição das florestas da linhagem Theravada da Thailândia.

15 de nov. de 2012

Caminho do Meio


“ Buda nos ensinou o caminho do meio; a não sermos muito rígidos, nem muito relaxados; a não ir nem a um extremo, nem a outro. Trilhar o caminho do meio faz surgir condições que conduzem ao estudo e prática, bem como ao sucesso em colocar um fim ao sofrimento. A expressão 'caminho do meio' pode ser aplicada genericamente em muitas situações variadas. Não é possível você se enganar. O caminho do meio consiste em seguir o meio dourado. Conhecer as causas, conhecer os efeitos, conhecer a si mesmo, conhecer quanto é suficiente, conhecer o tempo apropriado, conhecer os indivíduos, conhecer os grupos de pessoas: estas sete nobres virtudes constituem o caminho do meio ". - Ven. Achaan Budadasa

Postagem do Facebook de Budismo Para Todos

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