26 de mar de 2012

"Dicas" de um mestre zen - Soyen Shaku



Soyen Shaku, um mestre Zen, disse um dia: «Os meus olhos são frios como cinzas mortas, mas meu coração arde como o fogo». Eis as regras que praticava em cada dia da sua vida:

De manhã, antes de se vestir, acenda incenso e medite.
Coma a intervalos regulares e deite-se a uma hora regular.
Coma sempre com moderação e nunca até ficar plenamente satisfeito.
Receba as suas visitas com a mesma atitude que tem quando está só.
E, quando está só, mantenha a mesma atitude que tem quando recebe visitas.
Preste atenção ao que diz e, o que quer que diga, pratique-o.
Quando uma oportunidade chegar, não a deixe passar,
mas pense sempre duas vezes antes de agir.
Não se deixe perturbar pelo passado. Olhe para o futuro.

A sua atitude deve ser a de um herói sem medo
mas o coração deve ser como o de uma criança, cheio de amor.
Ao retirar-se, ao fim do dia, durma como se tivesse entrado no seu último sono.
E, ao acordar, deixe a cama para trás,
instantaneamente,
como se tivesse deitado fora um par de sapatos velhos.

25 de mar de 2012

"Três coisas agradam a todo o mundo: gentileza, frugalidade e humildade. Pois os gentis podem ser corajosos, os frugais podem ser liberais e os humildes podem ser condutores de homens." Textos Taoístas

18 de mar de 2012

Mutô-ryû Kenpô Shugyo Kisoku (Tesshû Yamaoka)


Mutô-ryû Kenpô Shugyo Kisoku (1880)

Autor: Yamanoka Tetsutarô (Tesshû Yamaoka)


Aquele que praticam o kenpô do estilo Mutô ryu devem aprender e se aperfeiçoar para que a as técnicas e os princípios se tornem um.

Os antigos fundadores criaram seus próprios estilos com base nas iluminações que tiveram acerca da arte, após um treinamento austero e intenso. Entretanto, hoje em dia, suas ramificações não mantiveram seus ensinamentos e o caminho se perdeu. Tudo que fazem é utilizar longas shinai para se envolver em meras disputas.

Isso se deve ao fato de não existirem mais pessoas que conheçam e compreendem de fato a verdade a cerca do kenpô. Hoje elas se atêm meramente as técnicas pequenas e são levadas por ostentações inócuas, preocupando-se mais com o aspecto externo do que o interno.

Em uma luta de verdade, com espadas reais, tais praticantes podem até mesmo obter a vitória . Mas isso será apenas um golpe de sorte e não uma vitória no sentido verdadeiro do termo.

A minha visão é totalmente contrária a isso. Deve-se praticar sem se importar com o aspecto exterior ou com as aparências, buscando sempre obter a verdadeira e natural vitória, atingindo o estado da não forma.

Dessa maneira, o iniciante que for admitido nesta escola para trilhar este caminho, deve primeiramente alcançar uma força de vontade inquebrantável e um destemor inabalável. Se ele se dedicar ao extremo no treinamento, será capaz de obter o corpo do estilo em três anos.

Sem que isso seja obtido, é proibido que ele tome parte em disputas, como as que estão em voga hoje em dia nas academias. Caso contrário, todo o esforço dispendido para obter o corpo do estilo terá sido em vão.

Antes de mais nada, o estilo Mutô-ryû foi baseado nas minhas compreensões e iluminações e contém o segredo da unicidade da técnica e dos princípios. Seu ensinamento é feito por meio dos métodos antigos de transmissão.

Aqueles que desejam adentrar este caminho devem seguir a risca estas normas.

30 de março de 1880
Fundador ddo estilo Mutô-ryû Yamaoka Tetsutarô



Retirado do livro: Peregrinos do Sol, A Arte da Espada Samurai. Autor: Luiz Kobayashi. Editora Estação Liberdade.

10 de mar de 2012

Ensinamentos Supremos do Estilo Tamiya-Ryû (1698)(trechos)


Autor: Tamiya Jirôemon Narimichi, 5º representante do estilo

Sobre o Iai

O Iai não se trata meramente de técnicas de saque e combate. Ao analisar a natureza humana, o sentar se apresenta como o início e o levantar se mostra como o fim.
Quando uma pessoa está de pé, ela consegue manejar uma espada com facilidade razoável. Por outro lado, é bastante complicado para essa pessoa brandir uma espada quando se está sentado.
Assim, o uso de técnicas quando se está sentado é para fins de treinamento. Se a pessoa conseguir utilizar a espada livremente enquanto sentada, então terá uma liberdade ainda maior se estiver de pé.
É um erro considerar que o iai tem como princípio alcançar a vitória através do saque da espada e do combate.
O “i” da palavra iai significa “estar”, e simboliza a unicidade da alma. Se a alma não estiver onde ela deve estar, então não será possível conhecer todas as coisas. E, portanto, não será possível reagir a incidentes.
Chama-se iai a reação perfeita aos incidentes, onde a alma da pessoa está onde ela deve estar. Em última análise, a pedra angular do estilo está em fazer com que a alma da pessoa esteja no local correto e agir de forma correta em qualquer situação. (…)

Sobre o ensinamento supremo

O ensinamento nada mais é do que firmar a alma. (…)
Se a alma não estiver firme, então não se pode dizer que atingiu a maestria da essência do estilo.
O ensinamento supremo do estilo nada mais é do que firmar completamente a alma de forma correta. Isso deve ser uma verdade a qualquer momento do dia . Esse é o princípio de suma importância.(…)



Fragmento retirado do livro: Peregrinos do Sol, A Arte da Espada Samurai. Autor: Luiz Kobayashi. Editora Estação Liberdade

3 de mar de 2012

Iai Batto Jutsu (Apresentação)

Ku Soku Ze Shiki (Roshi Taisen Deshimaru)


Ku Soku Ze Shiki



A VACUIDADE TORNA-SE FENÔMENO
OS FENÔMENOS TORNAM-SE VACUIDADE

"KU SOKU ZE SHIKI

SHIKI SOKU ZE KU"

Ku soku ze shiki. Shiki soku ze ku, devemos ir além, transcender, ao mesmo tempo, Shiki (fenômenos) e Ku (Vazio).

Devemos estar além da diferença e da similitude. Devemos ir além de Shiki e de Ku, além do pensamento e do não-pensamento. Nesse momento, atingimos a consciência Hishiryo. (Consciência Cósmica)

A interação é a lei de manifestação do poder cósmico fundamental; em outras palavras, ao manifestar-se, o potencial cósmico se dispersa e materializa a energia cósmica, que se divide em parcelas e se dispõe de acordo com uma ordem regida pela lei da interdependência. Somente essa lei dá à matéria a aparência fenomenal.

Se olhardes para Ku, vereis também Shiki. - {Ku soku ze shiki.} – {O Vazio são os Fenômenos}

Se virdes Shiki, olhareis igualmente para Ku. - {Shiki soku ze ku.} – {Os Fenômenos são o Vazio}

Todo o Sutra do Hannya Shingyo, o Sutra Prajna Paramita, gira em torno dessa fórmula. Se compreendermos tal relação tudo se tornará fácil. Não se trata de pensar nisso com o cérebro, mas de compreendê-lo plenamente através do corpo. A partir dos fenômenos, Shiki, da nossa vida cotidiana, voltar a Ku (Vazio), zazen. E de Ku voltar a Shiki para ajudar todos os seres e harmonizar-se com eles.

Se todos os dias nos concentrarmos uma ou duas horas no verdadeiro zazen, poderemos depois mergulhar nos fenômenos, voltar ao verdadeiro eu e espalhar nossa sabedoria pela vida quotidiana. Zazen torna-se então o leme do nosso movimento na vida.

A verdadeira concentração não é pensada nem não-pensada. Está além do pensamento, o pensamento absoluto. É o retorno ao Ku (Vazio) original, por efeito da concentração.

A concentração em Ku contém, virtualmente, a expansão em Shiki. (fenômenos)

A expansão fenomenal de Shiki contém, virtualmente, a volta à concentração em Ku.

Encontramos em Ku (Vazio) o infinito e o eterno. Desse modo, Ku, sinônimo de Nirvana, outra coisa não é senão o Caminho do Meio.

Mujo: a mudança, não-nascido, sem começo nem fim.

Sem nascimento, sem fim, somente mudança.

Não há começo, não há fim do cosmo. Num rio, vemos bolhas na água da corrente. A água torna-se bolha e, logo, torna-se água de novo.

Quando morremos, nossa vida não acaba. Voltamos ao cosmo, como as bolhas que estouram no rio. Devemos compreender a vida eterna.

Com freqüência, as pessoas amam a pureza e detestam a sujeira. Na sua origem, porém, todos os fenômenos, todas as existências do cosmo não são puras nem impuras. Tudo é idêntico. Mas pelo comportamento e pelo pensamento, as pessoas sujam e criam as separações. Em nosso globo, a terra, as montanhas, os rios, as florestas, os oceanos.., tudo é sem sujeira e sem pureza. É a natureza.

A purificação, a terra pura não existem em outro país, nem depois da morte. A terra pura há de ser construída aqui e agora.

Se tivermos o espirito bom, a consciência precisa, a palavra exata, o comportamento adequado, se a boca, o corpo, a consciência, essas três atitudes forem corretas, o meio será justo.

Só que, pela percepção, pelos sentidos, pela consciência, pelas sensações, tudo muda. As coisas tornam-se às vezes puras, às vezes impuras, os desejos nascem...

Pureza, sujeira, não se pode decidir.

Nossa personalidade, nosso espírito original é sem pureza e sem sujeira, e o cosmo também.

No nascimento, a consciência do bebê não está suja. Ele ignora a pureza ou as sujeiras. Mas, depois, a hereditariedade dos pais, o ambiente, as pessoas que o cercam, a educação não raro errada, influem nele progressivamente. O karma ignora a compaixão, o resultado, o efeito e vice-versa. Onde está o erro? O mérito? Só a consciência do ser humano decide a respeito dessas concepções.

Não há dualidade. Sem começo nem fim. Sem sujeira nem pureza. Sem crescimento nem decrescimento. Podemos ilustrá-lo com a metáfora da água e das vagas. Hoje cedo há tempestade e, de certo, grandes vagas no oceano. Quando a tempestade acabar, as vagas decrescerão, mas a água do mar não terá crescido nem decrescido.

A impermanência é a mudança perpétua de todas as coisas, portanto a não-entidade, a existência sem substância própria. No momento em que nasce, a chama morre; a chama que arde neste instante não tem nada em comum com a do instante precedente; a chama é a representação viva da não-substancialidade.

O potencial é o único dado permanente contido em cada uma das formas do manifestado, impermanente e fruto da interdependência; o potencial é permanente porque é eterno em tudo o que é e tudo o que não é. É independente porque é a causa e a condição de tudo o que existe; é o motor que produz e faz progredir o manifestado. O potencial existe em cada uma das formas-forças e em todas as relações que as ligam, desde o infinitamente pequeno até o infinitamente grande.

Dentro de toda manifestação permanece a plenitude da potencialidade, a qual contém a totalidade da manifestação. Essa potencialidade é o poder cósmico fundamental, o Ku, o Vazio, o não-manifestado e é ainda o grande Tudo e o manifestado no que o Tudo e o manifestado têm, em sua mudança evolutiva, de não-manifestado e de manifestação em potência, como a semente é o não-manifestado da árvore e a contém em potência.

Seja como for, todas as existências são Ku sem noúmeno (essência). Tudo existe sem existir.

Tudo só existe na mudança e por ela; pois o que subentende a mudança é o potencial. Devemos compreender que Mujo, a mudança, é a eternidade.

No Zen, não há ruptura entre o material e o espiritual; toda impressão é, ao mesmo tempo, espiritual, e fica registrada nos neurônios do cérebro em forma de informação atualizáve! a qualquer momento.

As sementes de karma depositadas perpetuam-se no espírito depois da morte; deverão manifestar-se necessariamente em função da lei universal, segundo a qual toda semente, quando chega o momento, germina ou perece (transforma-se). Formarão os dados hereditários do recém-nascido, de que este está investido desde a ovulação, e cujo potencial se contém no esperma do pai e no óvulo da mãe.

Se a semente não germina, precisa transformar-se. E o que acontece durante o zazen. O mau karma aparece libertando-se do inconsciente; mas pela ação da consciência do zazen, desvencilhada das seis percepções e da ignorância que delas resulta, o mau karma pode acabar, isto é, pode ser transmudado e regenerado na consciência pura original.

Esvaziado assim das sementes do karma, o espírito se abre para o eterno imutável, funde-se no potencial cósmico infinito, não sujeito à impermanência, nem à interdependência, não-nascido, não-criado, sem começo nem fim, que é a realidade eterna de Ku. (Vazio)

Em Ku nada aparece do que pertence aos domínios visual, auditivo, olfativo, tátil e gustativo. Como não há meio, não existe observação objetiva, nem subjetiva; não existe consciência. E o fim total. Absolutamente nada. Em Ku, completamente Ku, zero absoluto. (Shunyata)

Se já não há olhos, já não há forma, já não há percepção visual. E, visto que não podemos ver, nada se eleva da faculdade visual. Se não se estabelece a relação entre o órgão subjetivo e o fenômeno objetivo, não há Shiki (fenômenos) que possa aparecer e a consciência não se manifesta.

A fonte original do espírito não é, de maneira alguma, ignorância nem obscuridade. É totalmente pura.

Antes do nascimento o homem é ignorância. Seu nascimento é a atualização na matéria, ou encarnação, de sua consciência ignorante, que durante a transmigração permaneceu na consciência eterna. A ignorância é o agente produtor da ação.

A ignorância, fonte original das ilusões, determina a ação. A própria ação é karma, produto da ignorância. Transposto ao plano humano, esse fator primordial, a ignorância, reparte-se entre:

— de um lado, a ignorância dos pais, que gera o ato sexual e kármico e provoca a fecundação;

— de outro lado, a ignorância kármica da consciência do falecido, que quer encarnar-se e influir no ato sexual dos pais.

As duas causas interdependentes conduzem à formação embrionária. A consciência do falecido encarna-se desde o instante da fecundação, manifestação da energia cósmica. Dessa maneira, os três elementos. a saber, o pai, a mãe e a consciência do falecido, determinam o aparecimento do feto, e são os três igualmente responsáveis, e não apenas os pais, pois o karma passado quer realizar-se, e deve encontrar o suporte material para manifestar-se.

O satori só existe em função da ignorância e das ilusões. Desse modo, a ignorância e a ilusão são a condição necessária da existência do satori. E já se disse: Bonno soku bodai; as ilusões são o satori.

Não é, portanto, necessário querer eliminar a ignorância, pois eia não tem existência real e nós não temos noúmeno.(essência)

A ilusão não é uma coisa fixa, nem a substância de nosso espírito, mas um visitante, uma coisa que vem do exterior; é assim no tocante à cólera, à ignorância, ao medo, à ansiedade, à paixão, aos desejos. Por exemplo, sem o vento, as vagas não aparecem na superfície do lago. No que se refere às ilusões, a mesma coisa. Se não recebermos estímulos do exterior, elas não se elevarão. Visitantes, vêm do exterior. Ainda que recebamos excitações do meio, se nesse momento preciso não estivermos apegados, a verdadeira Sabedoria aparecerá.

O sofrimento é tanto físico quanto psicológico, sentimental, intelectual ou racional.

Desde que não podemos satisfazer nossos desejos, sofremos. Buda explica as condições do sofrimento. Quanto mais apego tivermos, mais se espalharão as ilusões. E se não pudermos satisfazê-las, acabamos por suicidar-nos. Ser muito apegado aos desejos equivale a ser como uma bomba.

Quanto mais aumentam os desejos, tanto mais se complicam os sofrimentos.

Todos os fenômenos cósmicos, todas as existências cósmicas constituem o potencial temporário existente, ou manifestado, atualizado no momento. Cada qual depende da lei da interdependência, em que a multiplicidade dos fenômenos depende da multiplicidade das relações que os subentendem. Por isso mesmo, ainda que os fenômenos temporários tomem forma ao nascer, se transformem e desvaneçam, sua substância não foi produzida nem destruída; tampouco aumentou ou diminuiu. Pois essa substância é o próprio poder cósmico fundamental, eternamente imutável, potencialidade suprema da qual procedem todas as potencialidades fenomenais, existências em perpétua mudança; suas formas aparecem e desaparecem ao sabor das interferências cósmicas rigorosamente ordenadas, depois desaparecem, desagregando-se, liberando a essência que reencontra a própria origem.



Retirado do Livro O Anel do Caminho, autoria: Taisen Deshimaru. Editora Pensamento.
Fonte: http://www.nossacasa.net/shunya/default.asp?menu=961

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